VERMELHO – amor carnal

“amor é, finalmente,

uma confusão de pernas

um rebuliço de ancas

uma união de ventres

quem diz outra coisa é besta.”

(Gregório de Matos, o Boca do Inferno, poeta baiano do século XVII)

E para falar de amor, que melhor coisa de se falar quando o amor é horizontal?

ABRIL

Abriu minhas pernas em pleno abril

e quando me fiz pura e rogada, riu

Queria me ter como eu fosse um abiu

… sumarenta e doce e pegajosa carne.

Mas o que teve foi um súbito pavor, corou

de si mesmo e lépido meu escravo se tornou

Queria ser açoitado pelos meus pelos. Chorou

… copiosamente lento sem fazer alarde

Meu amante terníssimo teve um momento

claro e de compreensão, sem um lamento

fizemos-nos iguais e horizontalizamos o centro

…. amar não é só ter, é tudo que arde.

SEXO

Calor quentura incomodando meu corpo

O suor escorre por entre poros dilatados

Respiração é um atropelo de gemidos sons

Movimentos rítmicos valsando rumo à exaustão

Pensamentos que se evolam no meio do nada

e esses flashes loucos alucinantes

apoteose de cores explosões emoções gestos

Ah… como é bom!

só quem sabe, entende

só quem viveu, sabe

só quem ousou, viveu

só quem amou, ousou.

ESSE SEU CORPO

Esse seu corpo balança

de encontro ao meu ritmo

balanceado em desejos e querências

essa febre queimando minhas ardências

essa dança louca encontro istmo

frenesi encanto arroubo samba

Esse seu corpo faiscante

ilumina a noite quente

cola corpos femina busto

envolve sedução fascínio rostos

desenvolve memória reticente

estrelas brilhando dançantes

Esse seu corpo

só esse seu corpo que faz tudo.

[Não gosto nem de me lembrar]

Não gosto nem de me lembrar

da tua língua me invadindo

das tuas mãos me descobrindo

dos teus loucos anseios me consumindo

de tudo e todos devagar me partindo

Não gosto nem de me lembrar,

porque me dá vontade de recomeçar.

NÓS

Eu penso nele,

no sexo e na amizade

que há entre nós

nos loucos intempestivos momentos

que se sucederam sobre o carpete

e que tanto prometem.

Supersex, saquinhos rasgados,

camisinha usadas,

o amor também se faz no chão.

Suamos, nos olhamos em vão

e o calor pinga nos olhos,

no corpo, no copo, em tudo o mais.

Nós estamos nos afogando em nós mesmos.

Somos ébrios de lucidez tresloucada

e estamos achados em nós perpendiculares

de desejos incontidos e pudores estremecidos.

Somos nós aqui hoje rubros

Simplesmente uma balada sensual

Um ritmo erótico e natural.

Nós.

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desjejum de segunda

o que comi

não basta saber cozinhar, tem que saber  quais usar ingredientes para cozinhar; não basta saber quais ingredientes usar, tem que se ter dinheiro para comprar ingredientes – e dinheiro tem sido coisa difícil de se manter na carteira, imagina em uma segunda-feira de manhã!

amanhecer plena segunda-feira nublada (precisava ser mais explícita a exemplificação da lassidão?) sem manteiga nem pão nem leite… e nem dinheiro… momento exige uma excursão investigativa nos recônditos escaninhos misteriosos da sua geladeira (incrível que mesmo um refrigerador de 240 l pode esconder mistérios insondáveis em suas profundezas!) e resgatar elementos alternativos para que se possa executar um desjejum aplicável ao caso (resumindo: cascavilhar para defender o rango da manhã).

hoje dei, para minha sorte, com goma fresca (não tão fresca, mas deu certo) que me rendeu tapiocas consideráveis, queijo coalho (um fim de festa, mas deu para fatiar fininho a fim de rechear as tapiocas) e leite condensado (na real, um dedinho que sobrou, mas misturado ao café…hmm…).

sabe aquela sensação de melhor refeição do mundo? não é só a fome que intensifica esse sabor, mas também o inesperado; imaginava/temia passar quase fome, à base de café preto… e só.

e, de repente, desjejum completo!: e diferente – o que estimula uma sensação de inovar o meu infinito particular.

saldo: desjejum decente tomado
aprendizagem: quando faltar algo, não temer recear a inovação.

o que vi

O incrível mundo de Gumball é uma animação que ainda me deixa perplexada (sim! perplexa + abismada = perplexada) e que passa insistentemente no Cartoon Network. Perplexa com a temática adulta, abismada com o besteirol; conteúdo pessimamente abordado – o que me deixa um tantinho assim reflexiva, feito a famosa estátua do Rodin: o que pretendem, afinal, com esse tipo de abordagem absurdamente (e, infelizmente, não estou sendo camusiana) caótica e irresponsável face às problematizações apresentadas?

e fico inquietando-me com a noção de que, talvez (quem sabe?), o que se possa apreender é que seja um ensaio de como não se importar com nada, um niilismo infantojuvenil (sou só eu que acha esquisito essa palavra não ter mais hífen com o novo acordo ortográfico, segundo o Volp?) em passar incólume por quaisquer agitações que não sejam inerentes ao ego (resumindo: meu umbigo e morra o resto!).

estarei sendo crítica e noiada demais? pior que penso que não, que definitivamente não mesmo.

saldo: vontade de mudar o canal
aprendizagem: esperar menos ainda da próxima geração (hélàs!)

o que farei

leitura com n-o-t-a-s do livro considerado YA (young adult) de David Levithan, todo dia, para mediação no grupo de leitura do WhatsApp.

não será o primeiro dia, trata-se do livro do mês, e houve resistência para adotarem esse livro, embora quisessem algum da Carina Rissi (sinceramente, eu a acho muuuiiito infantiloide – infantil e debiloide) ou do Nicholas Spark (embora²… duvido queiram adotar esse autor de novo, da única vez em que escolheram um livro dele, fi legendário! como eu não era a mediadora, ataquei de leitora… e fui feroz em minhas críticas – as quais tenho que me abster enquanto mediadora, afinal, o papel de mediar um livro é apresentá-lo e não detoná-lo), mas hoje… oh là là! já fizeram foi agendar a leitura da continuação desse livro, o “Outro dia”.

porque recomendei esse livro:
1. queria lê-lo;
2. alteridade é um assunto que sempre me atiça – e como não saber do outro se o protagonista vive um dia no corpo de outra pessoa, todo dia?;
3. considerado YA, um livro que seria mais de acordo com os hábitos de leitura dos integrantes do grupo, mas que era recomendado para quem não gostava do gênero, ou seja, prometia (e cumpre!) ser um livro da modinha um pouco mais maturado – e é o que leitores precisam: maturar experiências de leitura antes de atacar um Dostoiévski;
4. queria perceber o estilo de escrita do autor, David Levithan.

(resumindo: uni o útil ao agradável)

mas como hoje termina a jornada de leitura, já quero deixar prontas as perguntas-provocações que lançarei ao grupo: a ideia é que eu não ministre aula on-line, mas jogue a provocação feito isca e que debatam, discutam, exponham suas afirmações (é por isso que o grupo gosta tanto de mim enquanto mediadora; eu dou voz ao grupo – apenas direciono, mas também me deixo redirecionar caso seja pertinente), e, sim, é um exercício constante de alteridade – sempre temos que identificar o outro a fim de não melindrá-lo; trazê-lo ao nosso lado, não contra nós – e, se querem saber, sempre me é um dos exercícios de humanidade dos mais delicados e difíceis; o outro me é um mundo inabitável, acabamos todos nós sendo a epítome do Pequeno Príncipe vivendo sozinho em seu próprio asteroide B612.

saldo: dia ocupado com leitura crítica fazendo notas e mediação de todo dia, de David Levithan
aprendizagem: antecipar essas notas provocações, não procrastinar

 

Crônicas NT7 – 13º dia para o fim do mundo

Sábado amanheceu chuvoso. MUITO chuvoso.

Mesmo assim, a patuda resolveu pular em cima da cama ganindo reclamações para sair. E tão insistente, e tão gaiata na insistência que cedi, após um breve ataque de riso. E ao me ouvir proferindo a mágica palavra “volta”, pulou feito um gafanhoto em dia de festa no milharal para fora da cama e tome alegria!

Saímos, pois, assim que chuva minimizou. E mesmo assim o pelo da patuda mais gostosa de apertar da minha casa ficou difícil de enxugar. A alegria dela era do focinho sorridente (cães também sorriem!) ao rabo balançando alegremente, e passando pelas pernas saltitantes feito uma cabrita nas calçadas vazias. Uns 8 minutos de passeio, pouco mais de 500 m percorridos – e ela se satisfez com tão pouco! Saiu, fez o que precisava fazer (não preciso, por favor, dizer exatamente o que era, entendam esse eufemismo), voltou, teve o pelo (quase) enxuto, comeu… e agora… é o retrato da placidez canina! Um dia aprendo, com ela, a satisfazer-me com o mínimo necessário.

é ou não é um sorrisinho de satisfação plena esse daí que ela ostenta enquanto cochila?


Foi dar esse micropasseio, voltar a casa, enxugar (tentar, ao menos) pelo da cadelinha, dar comida aos bichos (o peixe-beta não participa dos passeios por motivos óbvios), banhar (a chuva ácida não é teoria da conspiração), e ir aproveitar tudo o que esse clima convida a fazer dentro de casa (se alguém aí apostou em nada, ganhou a aposta).

Manhã chuvosa, manhã de sábado chuvosa pede roupas velhas, aquelas que você tem vergonha de aparecer até no portão de casa, que são do quarto para dentro. A camiseta branca-branquinha, mas puída e o shortinho folgadão; você tem a certeza de que está igual a uma doida varrida, com os cabelões soltos, úmidos da chuva, despenteados (e que você não tem a mínima intenção de penteá-los tão cedo… para quê?!). Com essa indumentária, saborear len-ta-men-te o café quentinho, fumegando seu aroma único, enquanto perpassa pela net as últimas notícias, e acaba sabendo da (im)provável possibilidade de fim do mundo (de novo!…) para um dia antes de seu niver. Êbaaa!!! presente de niver antecipado?!… (não é provocaçãozinha, não, apenas cinismo de quem está tentando sair desse maldito vórtice depressivo).

Pera! quem sabe desta vez não seja só promessa e acabe com esta patifaria toda? (tenho cá comigo a teoria de que só um apocalipse faria com que o que restasse da humanidade entrasse em modo solidariedade, finalmente).

http://www.fatimanews.com.br/mundo/nao-vai-ter-nem-carnaval-asteroide-gigante-vai-colidir-com-a-terra-em/191270   

Fim do mundo. Duvido, mas … vamos pensar um pouco sobre isso?

a) quantos dias faltariam para esse suposto fim do mundo?
b) o que eu gostaria de fazer nesse tempo?
c) o que devo preservar para uma eventual catástrofe que não nos afete diretamente, cá no Brasil? (já perceberam que essas calamidades só “atacam” ou o hemisfério norte e/ou a Ásia? à América do Sul restou a praga política; e nem sei qual seja a pior)
d) e a quitação de dívidas com Deus?

E uma coisa me espantou nesta minha lista: minha última – e quase forçada – preocupação foi a dita espiritual. Isso significa que… ou estou muito em paz com a minha própria consciência ou estou nem aí com ela. Mas vamos por ordem nessa lista. Comecemos pelo começo.

13 dias. Mãe adorava o número 13, ela carregava, eventualmente, uma ferradura com o número 13 e uma figa de Guiné em sua bolsa (devo a ela manter comigo uma figa – tradição que ela me repassou, dando-me sempre uma figuinha de madeira). 13 dias. Duas semanas.

E o que fazer em duas semanas? não dá para viajar e conhecer o mundo, né? nem dá tempo para eu me mudar para Montreal, no Canadá (sonho velho, esse)! O que eu faria se soubesse que só me restariam TREZE dias?!? Pensei para caramba nesse prazo e – juro! – ficaria aqui, em casa, lendo e assistindo a seriados na Netflix. Perainda! isso implicaria que estou bem onde estou e como estou? Quelle surprise! Ponto para mim!

O que eu preservaria? nada além do que já tenho. (eita! ou estou mandando muito bem ou ando é muito Pollyanna: ultraconformada da Silva Sauro).

Deusa eterna! prestar contas com a Senhora do Universo?… hmmm… hmmmm²… hmmmmmmmmmmmmmmmmm³… Ah, tá, então! tranquilo. Faltas, tenho-as, sim. Okey. Uma coisa a ser posta nesta lista de duas semanas: prestar contas com a Mãe Eterna. Certo! lista de compras: velas e incensos. Quiçá! um óleo essencial de lavanda.

Talvez que seja exatamente isso de que o mundo precise: estar em paz consigo mesmo. Estar satisfeito consigo mesmo. Não consigo parar de achar que se cada um aprendesse isso não incomodaria o alheio. Você pode me chamar de sonhadora, mas sei que não sou a única.

Mas vamos às notícias do dia: “Com a eleição de Jair Bolsonaro para a presidência, em outubro passado, o Brasil passou a figurar na lista do Observatório de Direitos Humanos (HRW) de países governados por líderes autocráticos na lista do Observatório de Direitos Humanos (HRW) de 2019; no relatório, Bolsonaro é descrito como Bolsonaro “um homem que, com grande risco à segurança pública, encoraja abertamente o uso da força letal por policiais e membros da Forças Armadas em um país já devastado por uma alta taxa de homicídios causadas por forças policiais e mais de 60.000 homicídios por ano””

https://www.brasil247.com/pt/247/brasil/380708/Brasil-entra-na-lista-de-pa%C3%ADses-autocr%C3%A1ticos-ou-seja-de-ditaduras.htm

Geeente… pensando melhor… pode vir, senhor asteroide! Aliás… por favor, VENHA!

https://www.gospelgeral.com.br/2019/01/cientistas-da-nasa-alerta-que-asteroide-nt7-caira-na-terra-em-fevereiro-de-2019/

Hélàs!... ainda não é motivo de me alegrar ante essa perspectiva, há controvérsias! O probo(?) site da BBC nega a possibilidade de que esse asteroide, o NT7, venha a se colidir com a Terra. Afirma que “vai passar ao largo do planeta”.

https://www.bbc.com/portuguese/noticias/2002/020729_asteroideaf.shtml

Adeus, sonho de que isso tudo acabe! Mas, de qualquer forma, pelo sim e pelo não, registrar aqui esses treze dias que antecedem ou ao fim do mundo ou ao meu aniversário.

Hora de comer o arroz quentinho, recém-feito, com belas fatias de queijo coalho fritas e muita batatinha cozida no vapor. Um almoço frugalmente quente, feito no dia, com cheiro de casa. Porque nesses 13 dias que me podem restar, a primeira lembrança é a da família que já se foi deste mundo. Saudades, vó e mãe. Estou me cuidando conforme vocês me ensinaram e comendo direitinho, ‘tá? Beijos…. quem sabe? a gente se veja daqui a alguns dias.